"Hécuba"

Em 2020, tive a oportunidade de exercitar alguns textos e possibilidades de cenas como atriz, um lado meu que estava deixado de lado, já que minha atuação está mais ligada na direção e dramaturgia junto ao grupo que faço parte, o Núcleo Híbrido de Pesquisa Cênica.

Dentre esses exercícios, surgiu Hécuba! Projeto que foi contemplado num dos editais da Lei Adir Blanc da Unidade de Gestão e Cultura da cidade de Jundiaí. Deixo aqui o vídeo postado no Youtube da Cultura! Vem assistir!!

https://youtu.be/PuufO-6pfLA

Hécuba rainha. Hécuba mulher. Hécuba mãe. Hécuba, cativa de guerra. Hécuba cadela. As várias faces de Hécuba se apresentam contaminadas umas nas outras e, muitas vezes, não é possível dissocia-las, nem que seja necessário também, porque Hécuba pulsa e transmuta diante de tudo que se passa diante de si. O seu coração, as suas vísceras e as suas ações são movidas pela passionalidade feminina e materna, humana e animal. Hécuba carrega em si os horrores da guerra, a impotência diante da guerra, a voz silenciada, o trauma, as perdas. O corpo gasto e cansado parece se revestir de força bruta, ânsia sobrenatural, um grito que ecoa, um grito árido, ferida aberta. A personagem Hécuba é o ponto de partida para a construção deste solo teatral, a partir da pesquisa de três obras principais: “As Troianas” e a obra homônima “Hécuba”, ambas de Eurípedes e “As Troianas”, de Sartre. Hécuba é a segunda mulher de Príamo e rainha de Tróia. Após a queda de Troia, os gregos, vitoriosos, desejam partir de volta à Pátria, mas suas naus ficam retidas no Quersoneso Trácio por falta de ventos favoráveis. Neste ínterim, o fantasma de Aquiles aparece aos gregos para pedir-lhes que seja sacrificada sobre seu túmulo a virgem Polixena, uma das filhas de Príamo e Hécuba. Enquanto a mãe prepara os funerais da filha sacrificada, descobre que também morreu Polidoro, seu filho mais novo, que fora confiado pelo pai durante a guerra de Troia a Polimestor, rei do Quersoneso Trácio, levando consigo parte dos tesouros do rei dos troianos. É quando Hécuba apela a Agamêmnon para que vingue a morte do filho. Com a ajuda de suas escravas, ela atrai Polimestor e seus filhos à sua tenda, onde, com suas companheiras de cativeiro, mata os filhos do anfitrião traidor e arranca seus olhos. Cego e desesperado, Polimestor revela que o oráculo de Dioniso previra a transformação de Hécuba em cadela, antes de morrer lançada ao mar pelos ventos. De forma simbólica, essa transmutação de Hécuba em cadela nos traz essa condição de desumanização pela qual ela passa, afinal perde todos os seus filhos, perde a coroa, perde o lar e a pátria. Assim, como um animal acuado, ela se lança contra a ameaça e não se importa com as consequências, porque é movida pelos instintos selvagens. No artigo “O agir feminino em Eurípides: Hécuba e a memória sensitiva das mães”, Fábio de Souza Lessa coloca: “Hécuba pode ser entendida, à superfície, como uma tragédia de compreensão acessível, pois os temas tratados por Eurípides são recorrentes, inclusive no mundo contemporâneo, como as crises geradas pela guerra e seus paradigmas de sofrimento: a derrota e a solidão, todos conduzidos ao extremo” A saga de Hécuba remete ao arquétipo universal da opressão dos povos em meio às guerras e conflitos. Sendo assim, Hécuba é a rainha chorando seus mortos em Troia, mas também a mãe carioca que perde o filho num tiroteio, a mãe separada dos filhos na fronteira entre Estados Unidos e México, há “Hécubas” na guerra travada entre nazistas e judeus, americanos e mulçumanos, indígenas e europeus. A Hécuba de ontem e de hoje é despojada de tudo: lar, família, dignidade. Ela vê seus filhos e filhas serem mortos, ela vê as casas em chamas e não há saída satisfatória que possa aplacar a fúria dos homens em guerra. Ainda no artigo “O agir feminino em Eurípides: Hécuba e a memória sensitiva das mães”, Fábio de Souza Lessa também nos traz a reflexão: “Hécuba reflete acerca da guerra e de seus desdobramentos. As troianas cativas sintetizam o drama que os conflitos bélicos proporcionam, mas, ao mesmo tempo, emergem na ação em prol da defesa de ideais inerentes à solidariedade coletiva, hospitalidade, civilidade e liberdade […] A dor de Hécuba diante dos corpos dos filhos, afinal a tragédia de Eurípides tem muito a nos dizer sobre essa intensidade sensorial que melhor se expressa por meio da perda. Mais do que a condição de escrava, é a privação de tudo que os corpos-presentes dos filhos poderiam proporcioná-la que a move tanto na luta para poupar Polixena do sacrifício a Aquiles quanto na sua vingança contra Polimestor. A morte dos filhos priva Hécuba de tudo que a família poderia oferecê-la: conforto na velhice, proteção, em síntese, sentido. Mas, por outro lado, lhe permite algo que ideologicamente a sociedade grega, ou, mais especificamente, ateniense, quis vedar às mulheres: a fala e o agir”.


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