Você está bem?
Me perguntam se estou bem e a
pergunta, mera formalidade, indica que minha resposta deveria seguir o padrão: “sim,
estou bem e você?”
Porém, ando me rasgando nas
respostas e revelando mais do que eu deveria. Torno-me vulnerável. Por vezes,
presença desagradável que traz sempre consigo uma novena de desesperos e
intemperes a se rezar. A minha oração inquieta e perturbadora a ninguém importa,
de fato! A dificuldade é calar o ímpeto, manter a sóbria formalidade e encarar
que a pergunta: você está bem? Carrega consigo a resposta engatilhada e sem
nenhum risco de erro: sim, estou bem e você? Ao que meu interlocutor ou
interlocutora responderá de pronto: estou bem, obrigada!
Finda-se aí o risco da abertura
de uma fenda para o íntimo, para o aprofundamento das relações e a descoberta
nada agradável de que não, eu não estou bem. Uma vez que ocorra a brecha,
navega-se em mares desconhecidos e perigosos, com tempestades e tufões, alguma
calmaria e um triângulo das bermudas de onde não se sai tão facilmente.
Fugir à tentação de dizer a
verdade e “abrir o peito à força numa procura” é, ao mesmo tempo, um ato de
coragem e um certo suicídio social.
“Tu te tornas eternamente
responsável por aquilo que cativas” é uma linda frase que você encontra em “O
pequeno príncipe” e que nos traz uma certa fé na Humanidade, mas hoje em dia,
agora, nesse momento: o quanto você quer realmente cativar e ser responsável
por algo ou alguém?
Isso traz à tona a pontinha de um
Iceberg chamado mundo contemporâneo. Realidades líquidas, como bem nos diz
Bauman.
Perspicácia, agilidade, assertividade,
eficácia, metas alcançadas, workaholic e uma infinidade de expressões e
conceitos que eu arriscaria chamar de fugas.
A sociedade está fugindo para
fora de si, para os universos construídos nas redes sociais, um like é amor,
uma curtida é aceitação. Você está bem? Um emoji dá conta de responder. E basta.
Ousar ir além é para poucos. Até onde
a saúde mental consegue se manter intacta? A sensação de nó na garganta é tão
forte que pressinto o dia em que esses nós se desatarão, todos ao mesmo tempo.
Acabamos desabafando um pouco
aqui e acolá de maneiras erradas, porque explodimos com pequenas coisas e as
tornamos grandes e assustadoras. No fundo, é só a nossa essência querendo
espaço, mas a Nuvem não suporta tantos dados de uma vez só. Seria preciso um
Upload demorado e com alto risco de danos à placa mãe.
É preciso gerar memes. É preciso
estar feliz. À todo custo. Não seja o ser humano desagradável que fala dos seus
dissabores. Poupe a todos da sua infelicidade crônica. O mundo é muito mais que
a sua lista interminável de problemas entediantes. Não seja uma pessoa entediante
que preocupa a todos. Que traz notícias constrangedoras e sinais de cansaço
físico e emocional. Com atestados e receitas médicas. Esforce-se, por favor. Seja
mais.
Mais popular. Mais engraçada. Mais
sociável. Mais inteligente. Mais sarada. Mais bafônica. Mais lacradora.
Se te perguntarem “Você está bem?”,
pense muito antes de responder. É um caminho sem volta. Ser sincero e desejar
vínculos com outras pessoas é sinal de fragilidade, hoje em dia.
E, por favor, não seja a pessoa
com respostas prontas e filosofias da Wikipédia caso tenha o desprazer de
encontrar com alguém que ouse responder como realmente se sente. Caso isso
aconteça, permita-se ir além das frases de autoajuda. Algo surpreendentemente
bom pode acontecer. Quer saber o que é? Arrisque-se e descobrirá.
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